Afinal, o que é negócio de impacto?

Sumário

A empresa que impacta de forma positiva a sociedade e o meio ambiente pode automaticamente ser definida como um negócio de impacto? Ou a operação precisa ser superavitária? O lucro deve necessariamente ser todo reinvestido no negócio?

Essas são algumas dos principais questionamentos que surgem quando a proposta é entender o que é um negócio de impacto social e ambiental. O conceito de negócio de impacto está longe de ter encontrado um consenso em seu significado – é, portanto, um conceito em disputa.

Para alguns, negócios de impacto têm a intenção de resolver um problema socioambiental e devem reinvestir todo o valor faturado no próprio negócio para, assim, aumentar o impacto. 

Há, ainda, aqueles que dizem que negócios de impacto podem e devem distribuir o lucro entre seus investidores para que haja mais pessoas investindo e, como consequência, aumentar o impacto do negócio.

Frente a diferentes opiniões, o time da Semente se reuniu para discutir com mais profundidade esse assunto no episódio de estreia do Impactcast, o podcast de impacto da Semente Negócios.

O ex-sócio da Semente, Juliano Trevizan, a sócia e head de impacto Ellen Carbonari, e a sócia e coordenadora de comunicação, Alline Goulart, explicam a definição de negócio de impacto, os principais erros cometidos por quem decide ter esse modelo de negócio e quais os caminhos para estruturá-lo.

E neste artigo, desbravamos alguns dos pontos debatidos na conversa. Você pode ouvir o episódio completo por aqui:


Responsabilidade social e impacto social: definições

Para Alline Goulart, o principal ponto para começar a desmistificar ambos conceitos e entender a diferença entre “responsabilidade social” e “impacto social”.

A responsabilidade social implica separar uma parte dos rendimentos de uma empresa e doar para uma ONG, por exemplo, ou ter projetos de cunho social. Muito diferente disso é depositar o coração na operação de um negócio de impacto social:

“É algo que gera valor para sociedade e esse valor está atrelado com resolver um problema social ou ambiental. Aqui na Semente, por exemplo, a gente costuma olhar para os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e, para não ficar genérico, olhar também para o desdobramento desses objetivos, o que significa cerca de 150 sub-objetivos e 200 indicadores. Então o negócio de impacto surge com uma solução de mercado com a venda de produtos e serviços, mas também preocupado em resolver esse problema que está atrelado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.”

Nesse sentido, é importante também entender os conceitos “negócio” e “empreender”. Sobre isso, Ellen Carbonari pontua que a perspectiva da Semente é preciosa para entender como a inovação é aplicada nos negócios de impacto.

“Estamos falando de um empreender que está intimamente ligado à inovação. Mas não sobre um empreender de self-employment (empregado por conta-própria), e sim sobre trazer uma inovação para resolver um problema real. Quando estamos falando sobre um negócio de impacto, estamos falando sobre inovação nesse universo socioambiental. A inovação não é ter pufes coloridos na sala ou Kanban na parede, mas está relacionada a desbravar mercados com alta incerteza e conseguir gerar, capturar e entregar valor. Não existe inovação sem rentabilização.”

Intencionalidade

E já que o assunto é como gerar impacto, o próximo ponto tratado é a intencionalidade. Afinal, para que esse resultado seja alcançado é muito importante que esta intenção de resolver um problema – seja ela melhorar a educação ou promover a igualdade de gênero – esteja expressa no negócio.

O conceito de intencionalidade é importante até para o próprio entendimento dos empreendedores sobre o que é ser um negócio de impacto, porque não basta expressar uma vontade genérica de “querer mudar o mundo”.

É somente a intencionalidade que traz os requisitos, os indicadores, as posturas e os planejamentos que vão tornar possível alcançar um negócio de impacto social inovador que busca resolver problemas reais, socioambientais e economicamente sustentáveis – sendo esses três últimos elementos essenciais nesse processo.

E qual é a diferença entre negócio social e negócio de impacto?

O termo “negócio social” foi criado na década de 1970, pelo economista e banqueiro bengali Muhammad Yunus, criador do Grameen Bank. O termo “grameen” em bengali significa “aldeia” e, desde o nome, já descreve o caráter da filosofia dos negócios sociais: o objetivo do banco era emprestar dinheiro para pessoas que não teriam acesso a capital em bancos comerciais tradicionais. O Grameen Bank cresceu e se tornou um grande sucesso, permitindo que um número enorme de pessoas saísse da pobreza.

Posteriormente, o modelo foi apropriado para o ocidente por meio dos norte americanos Stuart Hart e Michael Chu, que redefiniram o conceito ao modelo capitalista de negócio.

Por isso, hoje, o termo que mais se aproxima ao conceito de negócio social, como inicialmente foi pensado por Yunus, é “negócio de impacto”, porque contempla uma preocupação real com o social e o investimento nas suas causas.

Uma vez compreendido o termo e o seu significado, aparecem novos questionamentos:

  • Um negócio de impacto precisa necessariamente atender demandas das classes C, D e E? Ou ele pode atender exclusivamente demandas das classes A a D?
  • Será que o negócio de impacto precisa ter necessariamente tecnologia ou não precisa?
  • Será que o negócio de impacto pode ter o caráter jurídico, de ONG ou não?
  • O negócio e impacto se justifica só pelo impacto que ele gera ou o empreendedor precisa ter essa intencionalidade explícita?
  • O negócio e o impacto se justificam só pelo impacto que ele gera ou o empreendedor precisa ter essa intencionalidade explícita?

A partir de todos destas questões, vão se criando mais e mais debates acerca do tema negócio de impacto, e a opinião de Juliano Trevizan, é a seguinte:

“Eu pessoalmente acredito que toda revolução começa pelo pessoal, então se a empresa não tem a intencionalidade muito forte de resolver um problema social ou ambiental, na primeira vez que isso tiver um confronto com o lucro, ela vai optar pelo lucro e descaracterizar a intenção do negócio.”

A autora Ann Mei Chang, no livro “Lean Impact”, traz à discussão as complexidades que envolvem a inovação social.

Nesse sentido, Chang nos apresenta um caso real de um investidor que queria apostar em impacto. Normalmente, se escolhe investir em um mercado ou geografia específicos mas, neste caso, o investidor estava interessado em contribuir com os setores da educação. Para isso, mapeou uma determinada região para atuar com uma intencionalidade explícita: a questão das meninas de baixa escolaridade no interior de um determinado país.

À medida que esse negócio foi evoluindo, foi entendido que, na verdade, o problema estava mais relacionado à falta de acesso à absorventes do que à educação em si. Muitas meninas preferiam perder dias de aula, perdendo conteúdos e provas importantes, porque não tinham dinheiro para comprar absorvente durante o período menstrual.

E aí está a complexidade e ao mesmo tempo a importância de se ter um diálogo com os investidores e com todos os atores desse ecossistema. Compreendendo que, muitas vezes, a intencionalidade de se resolver um determinado problema social ou ambiental pode ser transformada em outra coisa a medida que nos aproximamos e investigamos o problema de perto.

Isso não quer dizer que o aspirante a um negócio de impacto deva deixar o lucro de fora. Sobre isso, Alline Goulart explica que isso varia um pouco entre as organizações da sociedade civil, que dependem de doação e os negócios tradicionais que visam o lucro, mas, que no fim, a intencionalidade e os indicadores de crescimento devem caminhar juntos.  

Quatro princípios para um negócio de impacto

Juliano Trevizan explica que, existem quatro princípios que permeiam o processo de criação de um negócio de impacto.

São eles: a aliança, o próprio impacto, as métricas/indicadores, e um ponto mais estrutural que é a questão de governança. De acordo com ele, a governança é a estrutura para tomada de decisão dentro do negócio:

“A governança leva em conta não só os que os sócios do negócio acham, mas o que os fornecedores, os clientes, os funcionários da comunidade em geral que é afetada pela existência desse negócio acham dessas decisões também. Claro que o negócio quando está começando tem que se preocupar com intencionalidade e rentabilidade. É fazer o bem e ganhar dinheiro. Depois que o negócio cresce, a gente se preocupa mais com o método de governança.”, explica.

E o que são esses indicadores de impacto?

Antes de qualquer coisa, devemos lembrar que o investimento em negócio de impacto pressupõe um custo, então é um processo natural a partir daí buscar-se de dados que sustentem a garantia de retorno.

Sobre a definição dessas métricas, Alline Goulart apresenta três passos para que se consiga defini-las:

“O primeiro passo é entender o porquê de querer fazer isso, por que ser um negócio de impacto? O segundo é entender mais do assunto, seja contratando alguém que vai te ajudar a entender ou estudando e se aprofundando no assunto. O terceiro passo é conversar com seus clientes, fornecedores e com as pessoas que são afetadas pelo teu negócio, perguntando para elas ‘’se o meu negócio não existisse o que mudaria na tua vida?’’ A partir disso, você vai entender um padrão e a partir desse padrão vai conseguir criar algo que transforme em número. Você começa primeiro pelo qualitativo e depois vai para o quantitativo. E uma vez que você transforma os seus indicativos em números, você pode aplicar uma pesquisa e compreender por que, por exemplo, as pessoas que usam seu produto, tem 20% mais de chance de chegar a determinado objetivo”.

Dicas para investir em um negócio de impacto

Agora que você já entendeu o que é negócio de impacto, aqui vão algumas dicas finais para você que está tentando empreender ou investir nessa frente:

  • Um ecossistema de impacto possui inúmeros atores, às vezes o beneficiário e investidor e o contratante são coisas diferentes então é necessário ter uma capacidade de escuta profunda para chegar na raiz de um problema;
  • Um negócio de impacto não é sempre um mini negócio ou um negócio local, pode ser também um negócio bilionário, basta ser um negócio escalável ou replicável, que tenha impacto social, o que mais a gente tem no mundo são mazelas e falhas de governo para suprir;
  • Se você é um empreendedor de impacto você está na vanguarda, porque os negócios de impacto são o futuro. Muito em breve todos os negócios vão ser de impacto porque esse será o exigido pelo mercado. A tendência é o consumo cada vez mais consciente, onde as pessoas terão o cuidado de ler os rótulos dos produtos que compram, e darão preferência aos negócios que realmente confiam,  não somente aos que vendem produtos mais baratos.

Após todo esse debate, não deixaríamos você sem a definição de o que é negócio de impacto que a Semente acredita. Seguimos a definição da Aliança pelo Impacto, movimento com o qual contribuímos ativamente com várias iniciativas:

Negócios de Impacto são empreendimentos que têm a missão explícita de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que geram resultado financeiro positivo e de forma sustentável.

Semente Negócios

Semente Negócios

A Semente é uma empresa de educação empreendedora que aposta na inovação como ferramenta para a geração de prosperidade, desenhando e executando projetos customizados em três frentes: Programas de Empreendedorismo e Aceleração; Projetos de Inovação Corporativa; e Programas de Desenvolvimento Territorial. Em 10 anos promovendo prosperidade por meio da inovação, a Semente já atuou no Brasil e outros nove países apoiando mais de duas mil empresas tais como Vale, Natura, Mercur, Sebrae, Senac, Vivo, BB Seguros, entre outros.

2 comentários em “Afinal, o que é negócio de impacto?”

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