dúvida sobre negócios de impacto social

Estou confuso: o que é um Negócio de Impacto Social?

Sumário

Eu não gosto muito de suspense. Por isso, decidi começar pelo final: eu não sei o que é um Negócio de Impacto Social. Mas quer saber? Acho que ninguém sabe…
Oi! Eu sou o Juliano Trevizan e estou verdadeiramente honrado que você esteja dedicando seu precioso tempo para ler o que escrevi. Espero que daqui a cinco minutos você esteja tão confus@ quanto eu.
Venho trabalhando há alguns anos com empreendedorismo, mais especificamente na “rubrica” de impacto social.
Já acompanhei algumas centenas de pessoas e empreendimentos e, atualmente, atuo em dois programas que apoiam 130 negócios de maneira intensiva.
Eu sei, é bastante. Minha caixa de emails também sabe.
Pra começar, quero avisar que minhas palavras não são técnicas. Se você quer uma leitura assim recomendo a dissertação do meu sócio Marcio Jappe, Google it 🙂

Afinal, o que é um negócio de impacto social?

É importante falar que esse termo é fruto de um outro conceito: o de negócios sociais, criado pela lenda viva Muhammad Yunus. Para quem ainda não sabe, Yunus é um economista bengali, um dos principais defensores dos Direitos Humanos e vencedor do Prémio Nobel da Paz. É internacionalmente reconhecido por ter estruturado o sistema de microcrédito, que revolucionou o mercado ao conceder pequenos empréstimos a empreendedores que não se qualificavam para receber os tradicionais empréstimos dos bancos. Esse sistema possibilitou que milhões de pessoas saíssem da pobreza!
Agora voltando ao conceito proposto por Yunus, um negócio social tem um ponto chave: deve reinvestir 100% do lucro na própria empresa.
Entretanto, o que aconteceu foi que o mundo ocidental gostou dessa pegada social e adaptou o conceito. Foi inserido, então, o termo “impacto”, o que proporcionou o entendimento de que os empreendedores têm a liberdade para fazerem o que bem entenderem com o lucro do negócio.
Tendo isso posto, agora vamos por partes.
Nos tempos de escola, eu tive um professor de História que sempre dizia que palavras compostas são autoexplicativas. Ele falava: “Um meio de produção é um MEIO – DE – PRODUÇÃO. Um modo de produção é um MODO – DE – PRODUÇÃO”. Assim fica fácil, né?
A base da definição tá na cara. São negócios (na verdade, pessoas) que escolhem focar seus esforços em gerar um impacto para a sociedade.

Mas que impacto é esse? E que sociedade é essa?

imagem de agricultores trabalhando em uma colheita de morangos. foto ilustrativa do conteúdo: negócios de impacto
Aí que tá. É difícil definir esse conceito porque existem muitas variáveis subjetivas, como por exemplo, sobre o que é um impacto positivo. É aquela coisa, cada um tem sua opinião e argumentação, e quando se trata de definir o que é “bom” as divergências vêm à tona.
Para exemplificar esse dilema trago alguns exemplos: a Meu Copo Eco produz copos reutilizáveis em substituição aos copos descartáveis. O negócio calcula já ter evitado o desperdício de mais de 1 bilhão de copos descartáveis.
No entanto, a empresa não deixa de ser uma fábrica de copos. Aqui temos uma boa discussão, não acha?
Agora pense em uma empresa que trabalha com agricultura. Ela quer tornar esse mercado mais eficiente, produzindo alimentos mais resistentes às intempéries. Assim, o agricultor será beneficiado e teremos maior oferta de comida a menor preço. Seria a Monsanto, então, um negócio de impacto social?
Vamos por outro caminho: digamos que eu encontro uma cidade com alto nível de pessoas sem ocupação laboral. Então eu decido fundar uma fábrica e gero um alto nível de empregabilidade. Então as montadoras são negócios de impacto?
Viu como é subjetivo? Sempre vão existir argumentos mostrando ser “positivo” ou “negativo”. Há quem chame isso de luz e sombra. Por isso, o que quero dizer é que a questão não é essa.
Eu mesmo falo muito em “impacto positivo“, mas sei que esse é um discurso falido. E como fazemos para definir o que é um negócio de impacto social?

Entenda o impacto

Depois de analisar o “impacto”, precisamos entender o “social” e responder a pergunta: para quem nosso esforço é direcionado? Partimos da premissa que vivemos em um país (e um mundo) com desigualdade social. Portanto, existem negócios que irão estreitar o quesito desigualdade, e outros que irão intensificá-lo.
Por exemplo: um negócio de educação que prepara estudantes para o vestibular em alto nível cobrando um valor hora de R$ 100,00. O negócio deixa seus clientes muito felizes, pois os estudantes conseguem uma alta taxa de aprovação nas universidades.
Permitir que as pessoas vivam seus sonhos é um impacto, certo? Mas e quem não pode pagar pelas aulas? Essa lacuna social não vai ficar ainda maior?
Agora, digamos que eu tente estreitar a lacuna de desigualdade criando uma companhia aérea com baixíssimos custos. Isso permitirá que mais pessoas viajem, revejam suas famílias, criem novas possibilidades.
No entanto, para essa empresa funcionar ela precisa de altíssimos volumes de passageiros, o que acaba inflando os aeroportos e potencialmente prejudicando passageiros de outras companhias aéreas. E aí, é bom para a sociedade?
Definir o que é ou não impacto social é subjetivo e não há um conceito globalmente aceito. Academicamente isso se chama “conceito em disputa”. Assim, cada instituição que quer trabalhar com esse “tema” cria sua própria regra.
Para alguns, é importante focar nas classes C,D e E  que são a base da pirâmide. Para outros, tem que ser escalável: crescer muito rápido com custos não proporcionais. Tem quem defenda que ONGs também são negócios de impacto.
Mais recentemente, o que anda em pauta são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS), propostas pela ONU, que ajudam a entender quais “melhorias” o mundo mais precisa.
Tudo isso ajuda a direcionar, mas não resolve a questão.

Enfim, o que é um negócio de impacto social?

imagem de um agricultor colhendo arroz. ilustrativo do conteúdo: negócios de impacto social
Esse debate é importante para, primeiro, entendermos o óbvio: toda empresa gera impacto social. A diferença não está na geração do impacto, mas no querer gerar um impacto específico, tendo isso como prioridade por meio de sua atividade principal, o seu produto.
Empreendedores de negócios de impacto social entendem de maneira integral o movimento que sua entrada gera na sociedade. Assim, realizam, de maneira estruturada ou não, uma teoria de mudança e uma posterior avaliação de impacto.
É preciso entender que não basta analisar o que fazemos, mas também as potenciais consequências das nossas ações. Olhar não só para o final do processo, mas para o processo em si.
Por isso, empresas como a Mercur estão nos ajudando a entender, inclusive, como empresas centenárias podem se reinventar e serem negócios de impacto social porque querem ser assim. Antes tarde do que mais tarde.
Vamos deixar bem explicado: ser um negócio de impacto não é apenas resolver um problema e/ou necessidade socioambiental, mas escolher tratar o “impacto social” como um ponto central e estratégico do negócio, como orientador da tomada de decisão.
É preciso avaliar algo prático, que é reflexo de um processo pessoal e interno. Assim, enquanto negócio, buscar enxergar tanto o processo, quanto o resultado. Depois, avaliar periodicamente as implicações de sua existência na sociedade como um todo (mais difícil do que só ganhar dinheiro, né?).
Mas sabe o mais incrível? Grande parte d@s empreendedoras(es) de impacto nem se reconhecem como tal. Eu acho isso o máximo!
Essas pessoas estão resolvendo os problemas e necessidades que existem por aí, sem previamente se encaixar em algum conceito… Apegue-se às necessidades, não às ideias.

O importante aqui é saber que um(a) empreendedor(a) de impacto social precisa ter um conhecimento, duas habilidades e uma atitude:

  1. Conhecimento de causa: empatia através da imersão;
  2. Habilidade de um alto nível de execução (fazer, fazer e fazer de novo);
  3. Habilidade de se questionar constantemente (avaliar suas decisões e seu impacto);
  4. Atitude de nunca perder de vista seu propósito (e ressignificá-lo diariamente).

Lembre-se: FEITO > perfeito e POR QUÊ > o quê.

A intuição decide, a mente planeja, as emoções motivam e o corpo faz.
Se você quer criar um negócio ou transformar sua empresa em um negócio de impacto social, tenho uma dica: estruture bem sua teoria da mudança, entenda quais são suas métricas de impacto e vá coletando evidências do trabalho realizado. Ocupe-se então em resolver os problemas e necessidades do seu público, e o impacto ficará evidente.
Se você, assim como eu, ainda não sabe o que é um negócio de impacto social, mas escolhe ser a mudança que (você acha) que o mundo precisa, estamos aqui para te ajudar! Lembre-se: você não precisa criar a mudança, você é a mudança.
Se esse texto te tocou, incomodou, te fez rir ou chorar, comenta aí! Quem sabe não surge aqui mais uma boa história?
Juliano Trevizan foi sócio e consultor da Semente.

Semente Negócios

Semente Negócios

A Semente é uma empresa de educação empreendedora que aposta na inovação como ferramenta para a geração de prosperidade, desenhando e executando projetos customizados em três frentes: Programas de Empreendedorismo e Aceleração; Projetos de Inovação Corporativa; e Programas de Desenvolvimento Territorial. Em 10 anos promovendo prosperidade por meio da inovação, a Semente já atuou no Brasil e outros nove países apoiando mais de duas mil empresas tais como Vale, Natura, Mercur, Sebrae, Senac, Vivo, BB Seguros, entre outros.

4 comentários em “Estou confuso: o que é um Negócio de Impacto Social?”

  1. Kaléu Puskas Diedrich Caminha

    Juliano, fantástico.
    Tenho pensado muito sobre isso.
    Quanto mais caminho mais me parece que todo negócio é social, afinal, quando abrimos uma empresa escrevemos a nossa “Razão Social” lá. Mas é muito diferente quando o empreendedor sabe que o seu objetivo não é apenas o lucro. Se for apenas o lucro, acaba pendendo para negócios que fazem a sociedade mais corrupta, mais desigual e mais doente.
    Admiro muito o trabalho de vocês de preparar o empreendedor de dentro pra fora. Sucesso.

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