Programas de ideias X Programas de intraempreendedorismo

Sumário

Buscar o equilíbrio na ambidestria organizacional é o maior desafio das grandes empresas atualmente. O que isso quer dizer? Que, além de buscar eficiência operacional no core business, as empresas devem estar atentas aos sinais e às tendências de mercado, novos comportamentos de consumo e tendências tecnológicas para (através de processos de inovação) produzir novos produtos, serviços, desenvolver processos mais eficazes e prepará-las para o futuro

Em um ambiente competitivo caracterizado por rápidas mudanças, as empresas têm buscado cada vez mais explorar, além da inovação aberta, a capacidade intelectual interna para gerar novas ideias e transformá-las em produtos e serviços inovadores. Muitas empresas possuem um rico capital intelectual no quadro de colaboradores e colaboradoras, composto por pessoas que constantemente detectam ideias de novos produtos, serviços e processos durante o seu cotidiano de trabalho.

Com o objetivo de estimular a criatividade dos seus colaboradores e direcioná-la a questões críticas do negócio, muitas empresas passaram a estruturar iniciativas como os programas de geração de ideias e programas de intraempreendedorismo

Mas o que difere um programa de geração de ideias de um programa de intraempreendedorismo?

Programa de Geração de Ideias

O conceito de programas de sugestões não possui uma origem e nem uma data precisa. Há quem diga que ele surgiu nos EUA, no final do século XIX [1], ou que ele tenha surgido com o primeiro programa de sugestões implementado na Eastman Kodak em 1898 [2], ou que a origem seria uma caixinha colocada na entrada do Castelo Edo, no Japão, em 1721, para que as pessoas pudessem colocar sugestões, pedidos e reclamações por escrito [3].

A prática de solicitar sugestões e ideias aos funcionários, conforme a Japan Human Relations Association, foi usada pela primeira vez na Escócia, pelo armador naval Willian Denny, para que seus empregados dessem sugestões de como construir navios a um baixo custo. Contudo, só depois do pós-II Guerra Mundial é que os sistemas de sugestões ganharam popularidade, principalmente, a partir da abordagem japonesa vinculada às questões referentes ao movimento da qualidade total.

Independentemente de quando surgiu, os programas de geração de ideias representam um importante catalisador para potencializar insights das pessoas a fim de gerar oportunidades e resolver problemas. 

Modelos de Programas de Ideias

No que diz respeito aos programas de ideias, há duas abordagens categoricamente opostas: a japonesa e a tradicional, também conhecidas como modelo oriental e modelo ocidental, respectivamente.

O modelo ocidental possui a característica de estímulo à geração de ideias visando “garimpar” aquelas ideias que sejam brilhantes, para gerar inovações radicais dentro das empresas. Esse modelo de geração de ideias é estimulado por recompensas econômicas, onde os colaboradores e colaboradoras utilizam-se do sistema de sugestão para ganhar dinheiro e não com objetivo de aprendizado para gerar melhorias no trabalho.

O processo do modelo ocidental parte da análise das ideias que são verificadas para que possam trazer benefícios para a empresa. Depois dessa análise, a ideia é ou não aprovada. A seguir, a implementação das ideias selecionadas é realizada como um projeto de inovação com um planejamento definido, onde são delimitados, os recursos, as metas e os prazos de desenvolvimento e testes para que se gere resultados tangíveis para a organização.

Enquanto isso, o modelo oriental não se atém às grandes ideias geradas, mas sim com a contribuição voluntária de ideias e sugestões de todos os funcionários. Os programas de sugestões tradicionais normalmente oferecem grandes recompensas em dinheiro para encorajar a participação, enquanto os japoneses oferecem premiações simbólicas. A ênfase do modelo oriental está na contribuição para a melhora e o bem-estar da organização, em vez de recompensas financeiras para alguns indivíduos apenas. O principal objetivo do modelo oriental tem sua base na filosofia kaizen teian (kaizen = melhoria contínua e teian = sugestão, em japonês). Com a participação de todos os funcionários, o modelo oriental busca encontrar soluções para problemas rotineiros. Na filosofia do kaizen, quanto maior a participação de todos, maior será o acúmulo de conhecimentos.

Resumidamente a abordagem ocidental busca grandes ideias e oferece premiações financeiras para quem trouxe a ideia e a abordagem oriental busca a melhoria contínua através de sugestões voluntárias de todos os colaboradores da empresa. 

Programas de Intraempreendedorismo 

Intraempreendedorismo significa empreender dentro dos limites de uma organização já existente, seja atuando em melhorias incrementais de processos internos, desenvolvendo novos produtos e serviços ou criando novos modelos de negócio. O intraempreendedorismo faz com que os colaboradores de médias e grandes empresas comecem a utilizar a mentalidade ágil e testar rapidamente novas ideias e transformá-las em soluções, seja para resolver problemas e desafios internos ou para criar novas soluções de mercado.

O termo intraempreendedor (do inglês, intrapreneur) significa “empreendedor interno” e foi criado em 1978 como uma forma de se abreviar o conceito “intracorporate entrepreneuring”, empreendedorismo intracorporativo. Mas só se tornou explícito em 1985, quando Gifford Pinchot III, empresário e escritor norte-americado, escreveu o livro “Intrapreneuring: Why You Don’t Have to Leave the Corporation to Become an Entrepreneur”.

O intraempreendedorismo pode ser implementado de diferentes maneiras dentro de empresas, como, por exemplo, através de hackathons e programas de ideias, citados anteriormente. Contudo, a maneira mais organizada de se fazer é através de programas de intraempreendedorismo. Estes programas demandam planejamentos específicos para que sejam construídos da maneira correta, ou seja, demandam esforços e recursos dedicados para sua execução: espaço físico, pessoas, tempo e dinheiro da empresa.

O programa de intraempreendedorismo é uma iniciativa que tem alta capacidade de promover a cultura da inovação dentro das organizações ao promover o engajamento de várias pessoas. Por isso, programas de intraempreendedorismo devem ser desenhados como algo que engaje os colaboradores a participarem e não terem vergonha de propor suas ideias. 

É claro que cada empresa tem suas individualidades e os programas de intraempreendedorismo são diferentes para cada uma delas, pois cada organização tem suas particularidades, seja no ramo de atividade, nos processos internos, na cultura organizacional ou na sua natureza. No entanto, existem algumas questões muito importantes que auxiliam qualquer organização a obter melhores resultados em programas de intraempreendedorismo. Falo mais sobre esses pontos a seguir:

  1. Delimitar desafios específicos. A determinação de desafios, trazidos pelos gestores e diretores da empresa, ajudam a dar foco e direcionamento às pessoas na hora de enviarem suas ideias. Estes desafios podem ser relacionados tanto com processos internos quanto às necessidades dos clientes da empresa. 
  2. Alinhamento dos tipos de ideias com a estratégia de inovação. É essencial que os objetivos do programa e os tipos de ideias estejam alinhados à estratégia de inovação da empresa, normalmente delimitada por uma Tese de Inovação.
  3. Formação de um grupo de trabalho para a organização e engajamento do programa. É muito importante que, se possível, seja formado um grupo de trabalho formado por colaboradores de diversas áreas da organização que possam ser responsáveis pela co-criação, idealização e comunicação de ações do programa de intraempreendedorismo. 
  4. Formação de equipes. Além de dar espaço para que as pessoas enviem, individualmente, as suas ideias, é importante que sejam formadas equipes para o desenvolvimento das ideias aprovadas. Vale destacar a importância de se formar equipes multidisciplinares, pois a diversidade de pensamento e experiências das pessoas são essenciais para a construção da ideia.
  5. Tempo e liberdade para inovar. Fornecer espaços de tempos dedicados à inovação, dentro das horas de trabalho, é fundamental para que as pessoas validem suas ideias e desenvolvam seus projetos. Dessa forma, os intraempreendedores recebem autonomia para explorar e validar as ideias que eles buscam desenvolver.
  6. Ter recompensas (simbólicas e/ou financeiras) delimitadas para cada etapa do programa. Recompensas para as equipes são importantes para motivar e manter um bom nível de engajamento durante o programa. 
  7. Oferecer ferramentas para o desenvolvimento das pessoas. É de extrema importância que sejam oferecidos workshops, ferramentas e mentorias para que as equipes se capacitem com metodologias voltadas para inovação e consigam, assim, executar todas as atividades que o programa demanda. 
  8. Ter delimitada a governança de inovação para o processo de aprovação das ideias. Comumente através de um comitê de inovação, composto por pessoas de cargos estratégicos da empresa, as empresas devem delimitar quem irá aprovar as ideias em cada estágio do processo de amadurecimento do projeto, desde o envio da ideia até a fase de escala do novo produto, serviço ou processo. 

Apesar de serem programas muito bons para estimular a cultura de inovação, os projetos validados e aprovados ao final do programa de intraempreendedorismo devem receber auxílio da empresa para que sejam efetivamente implementados e alcancem a escala necessária, senão o efeito do programa é o oposto – ceticismo em relação à inovação.

Conheça o Programa de Intraempreendedorismo do Senac-RS, o ACELERA.

Diferenças entre os Programas de Ideias e de Intraempreendedorismo

Os programas de intraempreendedorismo se assemelham com os programas de geração de ideias no que se refere a trabalhar o engajamento das pessoas com o bom desempenho do negócio. Contudo, programas de intraempreendedorismo se diferenciam pelo seu planejamento, desenvolvimento e, principalmente, operação. 

Enquanto os programas de intraempreendedorismo delimitam etapas de desenvolvimento da ideia – com prazos, entregáveis, marcos e ritos de passagem – os programas de ideias não necessariamente seguem esse fluxo. Programas de ideias incentivam as pessoas a identificarem oportunidades de melhorias e novas soluções, mas não determinam que estas pessoas continuem trabalhando com uma equipe específica até a concretização da nova solução. 

O programa de intraempreendedorismo tem seus estágios, critérios de passagem, atividades e entregas embasados no pipeline de inovação. O pipeline de inovação é o processo pelo qual as iniciativas de inovação devem passar desde a concepção até a implementação para reduzir as incertezas (e o risco) a partir de experimentação e validação. O processo serve exatamente como um funil, em que o número de ideias vai diminuindo conforme avançam nas etapas do processo de experimentação e validação de hipóteses dos projetos.

Embora diferentes, ambas iniciativas trazem benefícios para as empresas e devem ser amplamente adotadas. Elas são ótimas formas de se disseminar a cultura da inovação e a mentalidade intraempreendedora (de identificação de problemas e oportunidades, e proposição de soluções). Além disso, são excelentes oportunidades para as empresas experimentarem novas ferramentas e metodologias de desenvolvimento de soluções. 

[1] BÖHMERWALD, P. Gerenciando o sistema de sugestões Belo Horizonte: Fundação Cristiano Ottoni, 1996.

[2] FLAHERTY, J. Management: bosses make cost consultant out of blue-collar worker. The New York Times, New York, 18 Apr. 2001.

[3] JAPAN HUMAN RELATIONS ASSOCIATION (JHRA). Kaizen Teian 1: developing systems for continuous improvement through employee suggestions. Portland: Productivity Press, 1992

André Bitencourt

André Bitencourt

Atua no apoio ao desenvolvimento de estratégias de inovação. Engenheiro de Produção formado pela UFRGS, estudou business management na RMIT University, na Austrália. Trabalhou na área de Marketing da Dell Computadores e foi sócio fundador da WizyPet, startup focada em desenvolver uma plataforma para manter o histórico de vida dos animais de estimação em um ambiente seguros e confiável, onde atuou como CEO. Na Semente atua como consultor na vertical de projetos de inovação corporativa.

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