Programas de Intraempreendedorismo: do Planejamento à Execução

Sumário

Uma das maneiras de fomentar a cultura de inovação dentro de organizações é trabalhar o empreendedorismo interno, também conhecido como intraempreendedorismo. Este conceito é um dos responsáveis por abrir espaço para a temática da inovação e trazer uma mudança estrutural para as empresas hoje em dia, principalmente aquelas interessadas em desevolver programas de intraempreendedorismo.

Empresas que apostam no intraempreendedorismo encontram ferramentas essenciais para o desenvolvimento e impulsionamento da cultura de inovação. Ao mesmo tempo, são construídas oportunidades para o desenvolvimento individual dos colaboradores e colaboradoras, bem como a possibilidade de surgimento de produtos e modelos de negócio inovadores.

Como resultado, há, além da criação de uma cultura de inovação, enraizada e promovida entre todas e todos, a entrega de resultados tangíveis para a empresa. Esses são alguns dos principais motivos que organizações de todo o mundo têm investido em colaboradores e colaboradoras com perfil empreendedor, capazes de aplicar o intraempreendedorismo no ambiente de trabalho.

A cultura de inovação pode ser implementada de diferentes maneiras dentro de empresas. Por exemplo, através de hackathons, programas de ideias, programas de conexão com startups etc. Contudo, a maneira mais organizada de se fazer isso é por meio de programas de intraempreendedorismo. Estes programas demandam um planejamento específico para que sejam construídos da maneira correta.

Confira, neste outro artigo, a diferença entre programas de ideias e programas de intraempreendedorismo.

Como dar início ao planejamento?

Para dar início ao planejamento de um programa de intraempreendedorismo, é muito importante que a empresa delimite desafios claros para a jornada. Essa determinação, trazida pela alta gestão, ajuda a dar foco e direcionamento às pessoas na hora de enviarem suas ideias. Estes desafios podem ser relacionados tanto com processos internos quanto às necessidades dos clientes. Além disso, é fundamental que os desafios e objetivos do programa estejam de acordo com a estratégia de inovação da empresa.

Um programa de intraempreendedorismo pode ter a sua duração variada, conforme os objetivos e desafios estabelecidos pela empresa. Contudo, estes programas costumam durar entre sete e oito meses. Além disso, essa é uma iniciativa que demanda tempo de quem participa. O investimento em alocação de pessoas pode variar entre oito e doze horas semanais. Sendo assim, as empresas que queiram ter esse tipo de programa precisam encontrar formas para que cada colaborador ou colaboradora possa despender esse tempo dedicado, sem sobrecargas ou demandar horas-extra.

Vemos algumas pessoas reunidas em uma mesa (imagem ilustrativa). Texto: programas de intraempreendedorismo.

Além da alocação de pessoas nas equipes dos projetos, é essencial que a empresa conte com uma estrutura de governança interna para o programa. É necessário que se estruture um grupo de cinco a sete pessoas como tomadoras de decisões, caso não haja um Comitê de Inovação já estabelecido.

Elas serão responsáveis pelas aprovações importantes durante a execução do programa, além de aprovar as ideias em cada estágio do processo de amadurecimento do projeto, desde o envio até a fase de escala do novo produto, serviço ou processo. Outro ponto importante é a formação de um grupo de trabalho, que pode ser de pessoas de diversas áreas da empresa, para cocriação, idealização, divulgação e comunicação de ações do programa de intraempreendedorismo.

Mentores e recompensas

Para garantir que os projetos desenvolvam fatores inovativos e pensamentos “fora da caixa”, indica-se a atuação de mentores e mentoras para os projetos. Idealmente, deve-se fazer um levantamento de pessoas do Ecossistema de Inovação no qual o cliente está inserido, que poderão auxiliar as equipes durante a jornada. É importante destacar que a diversidade de pensamento e experiências das pessoas que compõem este grupo mentores e mentoras são fatores fundamentais para trabalhar a inovação atrelada aos projetos desenvolvidos dentro do programa.

Outra questão importante é trabalhar com recompensas (simbólicas e/ou financeiras) para cada etapa. Estas recompensas para as equipes são importantes, pois motivam e mantêm um bom nível de engajamento durante toda a operacionalização do programa. 

Exemplo de recompensas em programas de intraempreendedorismo

O Acelera, Programa de Intrampreendedorismo do Senac-RS, é um bom exemplo do quanto as recompensas podem ser um fator-chave para o engajamento das pessoas com a iniciativa. A premiação para a equipe vencedora do programa foi de R$ 5 mil para ser usado em uma viagem ou curso/evento de inovação, e uma bolsa integral de pós-graduação na faculdade do Senac, para cada integrante da equipe. Além disso, haviam premiações intermediárias durante as etapas do programa, no formato de eventos e brindes para os participantes. Com isso, foram 368 ideias submetidas para a avaliação do Comitê de Inovação e 20 selecionadas para serem trabalhadas ao longo do programa. 

Também é de extrema importância oferecer workshops, ferramentas e mentorias para que as equipes se capacitem com metodologias voltadas para inovação e consigam, assim, executar todas as atividades que o programa demanda.

Aqui na Semente, nos baseamos em metodologias próprias para o planejamento, estruturação e execução de programas de intraempreendedorismo. Tais programas devem ter seus estágios, critérios de passagem, atividades e entregas embasados no pipeline de inovação. 

O pipeline de inovação é o processo pelo qual as iniciativas de inovação devem passar, desde a concepção até a implementação, para reduzir as incertezas e o risco, a partir de experimentação e validação. O processo serve exatamente como um funil, em que o número de ideias vai diminuindo conforme avançam nas etapas do processo de experimentação e validação de hipóteses dos projetos.

Etapas na execução de programas de intraempreendedorismo

Primeira etapa: submissão das ideias

Em uma primeira etapa, os colaboradores e colaboradoras da empresa devem submeter suas ideias para participar do programa. Essas ideias passam por um comitê de avaliação. Fundamentalmente, esse comitê deve avaliar o alinhamento da ideia com os objetivos e desafios do programa, além do alinhamento com a estratégia de inovação da empresa.

Após esta avaliação, é importante que sejam formadas equipes para o desenvolvimento das ideias aprovadas. Vale destacar a importância de formar equipes multidisciplinares, pois a diversidade de pensamento e experiências das pessoas é essencial para a construção da ideia.

Segunda etapa: pipeline de inovação

Já na segunda etapa, o processo do pipeline de inovação é, de fato, iniciado. Após avaliação seguindo os critérios delimitados no início do programa, alguns projetos iniciam as atividades da etapa que chamamos de “Exploração e Descoberta”. Nessa etapa, basicamente, as equipes precisam ir ao mercado, conversar e entender as demandas e necessidades reais das pessoas para, só depois, pensar nas suas hipóteses de solução.

Terceira etapa: construindo soluções ideias

No terceiro momento, as equipes validadas e aprovadas começam a construir suas soluções ideias. Esta etapa é classificada como “Ideação, Validação e Engajamento”. A proposta é, novamente, de conversar com o mercado para apresentar as ideias de solução, engajar o público-alvo e testar sua aceitabilidade.

Após as devidas validações, as equipes já podem começar a estruturação dos seus modelos de negócio. Ao final, todas as equipes participam de um evento de apresentação das suas ideias, conhecido como Pitch Day. Neste momento, ocorrem as apresentações dos projetos para uma banca avaliadora que deve selecionar os projetos para a quarta etapa do programa.

Vemos algumas pessoas em uma sala de reunião. Um homem está de pé realizando uma apresentação. Sobre a mesa vemos computadores e algumas sacolas com papéis de presente (imagem ilustrativa).

Quarta etapa: prototipação de MVP

Essas equipes irão, então, começar a trabalhar na prototipação dos seus MVPs (Mínimo Produtos Viáveis). Neste momento, indica-se que as equipes tenham a liberdade de optar por desenvolver os protótipos com recursos internos ou conectando-se com o ecossistema (startups, Universidades, outras empresas etc).

Além disso, é neste momento que ocorre a testagem destes protótipos e MVPs com os respectivos públicos-alvo. Ao final desta etapa, todas as equipes devem apresentar um pitch dos seus projetos para outra banca avaliadora no evento de encerramento do programa, conhecido como Demo Day.

O Demo Day

O Demo Day é a quinta e última etapa do programa de intraempreendedorismo. Nesse encontro, devem acontecer as apresentações das soluções e a premiação das equipes vencedoras.

Diferentemente do Pitch Day, momento em que as equipes apresentam o conceito da ideia de solução e as validações deste conceito com o público-alvo, no Demo Day, as versões funcionais das soluções devem ser apresentadas junto aos resultados da iteração com o mercado. Neste caso, as equipes demonstram como o MVP da solução funciona na prática, em situações reais de consumo.

Além disso, as equipes preparam a apresentação dos seus negócios com outras informações relevantes. Por exemplo, tamanho do mercado e oportunidade de escalabilidade da solução, mapa de concorrência, modelos de receita etc. 

Embora sejam excelentes para estimular a cultura de inovação, os projetos validados e aprovados ao final de um programa de intraempreendedorismo devem sempre receber auxílio da empresa para que sejam efetivamente implementados e alcancem a escala necessária. Caso contrário, o efeito do programa é o oposto do esperado: descrença em relação às iniciativas de inovação.

Benefícios dos programas de intraempreendedorismo

Para além de incentivar a cultura da inovação, esses programas surgem como iniciativas para o desenvolvimento individual das pessoas dentro das organizações. Ao mesmo tempo, trazem e distribuem não só a educação empreendedora necessária para inovar, mas também desenvolvem novas soluções para problemas reais identificados.

Programas de intraempreendedorismo sinalizam a capacidade e o engajamento de uma organização para inovar. Assim, é possível fazer um grande movimento para o estabelecimento de uma cultura da inovação e impactar a empresa positivamente. Tudo isso transforma a organização em um ambiente amigável para a experimentação de ideias e resolução de problemas.

André Bitencourt

André Bitencourt

Atua no apoio ao desenvolvimento de estratégias de inovação. Engenheiro de Produção formado pela UFRGS, estudou business management na RMIT University, na Austrália. Trabalhou na área de Marketing da Dell Computadores e foi sócio fundador da WizyPet, startup focada em desenvolver uma plataforma para manter o histórico de vida dos animais de estimação em um ambiente seguros e confiável, onde atuou como CEO. Na Semente atua como consultor na vertical de projetos de inovação corporativa.

2 comentários em “Programas de Intraempreendedorismo: do Planejamento à Execução”

  1. Pingback: Programa Realize: cultura de inovação através da aprendizagem

  2. Boa pergunta- como iniciar com o planejamento? Eu pessoalmente acabei por usar as ferramentas digitais para planejar tudo melhor. kanbantool.com sempre ajuda me organizar e definir todas tarefas, especialmente quando tenho muitos projetos e nao consigo fazer tudo sozinha. Kanban parece um amigo melhor 😀

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.