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O que são negócios com propósito?

Sumário

Conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a preservação ambiental: eis aqui um dos, senão o principal, dilemas éticos e estratégicos do século XXI. Os limites da nossa atuação enquanto sociedade industrial e do nosso sistema econômico ancorado no capitalismo tradicional já foram evidenciados em múltiplas instâncias e expostos através de diferentes lentes e perspectivas, desde os alertas de emergência climática e limites planetários até os abismos de desigualdade social crescentes em tempos de crise.

O movimento agora, para aqueles que desejam se manter na vanguarda, reside justamente em construir os mecanismos, ferramentas e arranjos que nos permitirão prosperar enquanto sociedade em equilíbrio com os nossos parentes e vizinhos que habitam outras comunidades ecológicas do nosso entorno. Em seu livro “Economia Donut”, a economista Kate Raworth apresenta um novo modelo gráfico e aplicado para que possamos pensar em como reorganizar os nossos objetivos e metas. 

De um lado há o “teto planetário” de uso dos recursos e emissões e, do outro, os “alicerces sociais” que constituem a base, o mínimo necessário para alcançar melhores indicadores de bem-estar, equidade e justiça social. A saída, segundo a autora, reside em construirmos novos modelos de geração de valor que sejam regenerativos e distributivos em suas bases e em seu propósito.

Partindo de uma outra perspectiva, Ailton Krenak, jornalista, escritor, filósofo e liderança indígena escreve em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo” sobre a importância de nos permitirmos aprender sonhar, e “reconhecer a instituição do sonho como um exercício disciplinado de buscar as orientações para as nossas escolhas do dia a dia”.

Diante da possibilidade do fim do mundo, ilustrada pela imagem da “queda do céu”, Krenak nos convida a combinar os nossos sonhos e nossas capacidades críticas e criativas para que possamos costurar diversos paraquedas coloridos, instrumentos que nos permitirão lidar com este período e seus desconfortos.

Mas como isso se relaciona com o mundo do empreendedorismo e dos negócios com propósito?

De todas as formas! Como já falamos em um post anterior, quando os empreendedores se colocam a serviço da sociedade, conseguimos potencializar nossa capacidade de transformação e de geração de prosperidade por meio da criação de valor compartilhado, criação de novos mercados sustentáveis e articulação de ciclos virtuosos.

Prosperidade e propósito: dois grandes aliados na jornada da inovação social


As organizações que desejam prosperar se comprometem em entregar não apenas performance financeira, mas também mostrar como estão contribuindo positivamente para a sociedade, entregando as melhores soluções para as cadeias e territórios que mais necessitam. Suas ideias, planos e projetos precisam se desdobrar em ações concretas, em novas soluções e arranjos organizacionais que solucionem problemas reais de fato contribuam para uma economia distributiva e regenerativa. 

Para isso, é essencial que os modelos sejam construídos ao redor de um propósito bem definido, ou seja, de uma tese de transformação e mudança para um território, setor ou comunidade.

O que é propósito? E como este conceito se aplica ao mundo dos negócios?

De acordo com a definição do dicionário, propósito tem o significado de:

  1. intenção (de fazer algo); projeto, desígnio.
  2. aquilo que se busca alcançar; objetivo, finalidade, intuito.

No universo dos negócios, isso significa que as ações e estratégias são guiadas por um compromisso ético com o mundo que parte das pessoas com a organização. Colaboradores, fornecedores, consumidores e investidores identificam-se como atores-chave, agentes de um movimento maior, dotado de significado, no qual se engajam por identificarem sinergia com suas crenças individuais e modos de existência.

A incorporação do “propósito” no modelo de negócio é um movimento que inclui mas não se restringe apenas às grandes empresas e organizações. Cada vez mais vemos novos negócios, startups e demais iniciativas mercadológicas em estágios de iniciais validação que se constituem em torno do objetivo central de resolver um problemas social e/ou ambiental e gerar retornos positivos para seus stakeholders, incluindo aqui não apenas os sócios e investidores financeiros da ideia mas também e principalmente os demais agentes sociais envolvidos na cadeia de valor e no território em que o negócio está instalado.

Em muitos aspectos o conceito de “negócios com propósito” dialoga e se relaciona com o universo dos “negócios de impacto”. De acordo com a Carta de Princípios para Negócios de Impacto no Brasil, publicada em 2015 pela Força Tarefa de Finanças Sociais com apoio do Instituto em Cidadania Empresarial (ICE), os negócios de impacto social são empreendimentos que têm a missão explícita de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que produzem resultado financeiro positivo de forma sustentável. Deste universo surgem muitas ramificações, como os Negócios Periféricos e os Negócios Sociais.

No entanto, em muitos contextos o uso do termo “impacto” carrega uma conotação semântica negativa, relacionado aos efeitos nocivos de determinada indústria, aplicação ou tecnologia. As externalidades da economia tradicional, o esgotamento dos recursos naturais e a geração de resíduos e demais passivos sociais e ambientais são algumas das formas que “impactamos” o mundo e os ecossistemas em que estamos inseridos com nossos modelos ultrapassados.

E então, o que são negócios com propósito?


Em síntese, negócios com propósitos são aqueles empreendimentos que buscam resolver um problema e/ou necessidade socioambiental, tendo essa solução como um ponto central e estratégico do negócio em sua atividade central. Seus produtos, técnicas, serviços e tecnologias são desenvolvidas na interação com a comunidade e representam efetivas soluções de transformação social às diversas realidades onde se aplicam.

São também capazes de se sustentar financeiramente com geração de receita própria, utilizando mecanismos de mercado para potencializar seu alcance e sua capacidade regenerativa e distributiva. Incluem-se nesta categoria organizações formalizadas de qualquer natureza jurídica (com ou sem fins lucrativos) bem como empreendimentos em estágio inicial ainda não formalizados.

Características dos negócios com propósito

  1. Resolve um problema real

Estão desenvolvendo soluções para problemas sociais e/ou ambientais específicos. 

Geralmente estão alinhado a pelo menos um dos 17 ODS definidos pela ONU (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030).

  1. É financeiramente viável

Opera por meio da lógica de mercado e busca retorno financeiro, ou seja, gera receita própria por meio da venda de produtos e/ou serviços, independentemente do seu formato jurídico. A equipe tem as condições técnicas para entregar a solução e não depende de subsídios, ainda que possa recebê-los em diferentes etapas de sua jornada como ajudas pontuais.

  1. O propósito está no coração do modelo de negócio

A geração de valor compartilhado estão presentes na atividade principal da organização. Ou seja, a atividade principal, que gera receita, deve ser a mesma que gera os benefícios para a comunidade. Não é uma ação pontual de responsabilidade social e/ou ambiental.

  1. Busca monitorar os resultados positivos da sua atuação

O negócio tem compromisso  em medir e comunicar os resultados sociais e/ou ambientais que gera na sociedade. Já que o propósito é tão importante quanto a geração de lucro, os empreendedores devem se preocupar igualmente em entender se estão atingindo seu objetivo, mensurando e comunicando estes dados para as partes interessadas.

O Projeto Horizonte e os negócios com propósito

O Projeto Horizonte, uma iniciativa Vale em parceria com a Semente, é um programa com duração de dois anos que proporciona capacitação empreendedora, consultoria e aporte financeiro para a prosperidade de negócios nas localidades mineiras Itabirito, Barão de Cocais, Macacos, Antônio Pereira, Engenheiro Correia e Santa Bárbara. Dividido em quatro etapas, o Projeto tem como proposta apoiar e capacitar os moradores na abertura e na transição de negócios para a lógica de negócios com propósito. 

A seguir, você conhece alguns dos negócios com propósito que a Semente está capacitando no Projeto Horizonte.

TC Idiomas

Você sabia que 95% dos brasileiros não falam inglês fluente? Para transformar a realidade do ensino de Inglês, a Camilla Barreto e o Tiago Carvalho, co-fundaram a TC IDIOMAS. Utilizando uma metodologia de ensino desenvolvida exclusivamente para seus alunos, focada na conversação, a TC Idiomas oferece um ensino de inglês transformador, com acesso para todas e todos.

O negócio com propósito faz parte da Agenda 2030 da ONU, alinhado ao ODS 4 – Educação de Qualidade, assegurando uma educação inclusiva e equitativa. Em 2021 já foram mais de 900 alunos atendidos, sendo 70% provenientes de escolas públicas e 60% mulheres.

Tecelãs de Brumal

Contribuindo para preservação do patrimônio local e mineiro, a produção da Casa das Tecelãs de Brumal gera trabalhos temporários e aquece a economia local, destinando 25% da produção para remuneração de serviços de outras artesãs da comunidade. A equipe é composta por profissionais do distrito, estimulando a cadeia produtiva local e permitindo que moradoras de Brumal encontrem um novo significado para sua atuação.

“Eu estava na fase de depressão e se eu me curei foi por causa do tear”, comenta Cássia Aparecida das Neves, uma das tecelãs associadas. Além de gerar emprego e renda, o negócio com propósito das Tecelãs de Brumal aplica um saber ancestral na forma de tecnologia social, contribuindo para resolver problemas sociais de saúde comunitária e bem-estar.

Curumim Orgânico

Sediado na zona rural do distrito de Macacos, o Curumim Orgânico oferece para o mercado uma produção artesanal e natural de adubos e defensivos orgânicos que não agridem o meio ambiente. Por meio de uma atuação em rede, o negócio busca desenvolver soluções de economia circular para a geração de resíduos da comunidade na qual se encontra, ao mesmo tempo em que produz adubo orgânico e de qualidade acessível para empresas, cooperativas, agricultores e entusiastas de jardinagem de todo o país. O empreendimento também desenvolve outras soluções naturais para melhorar a produtividade e a saúde das plantas, como defensivos cítricos, em harmonia com o meio ambiente.

Luciana Brandão

Luciana Brandão

Gestora de Projetos e Consultora de Inovação Social na Semente Negócios, atua no desenho de estratégias de desenvolvimento territorial e setorial, na criação e gestão de programas e capacitações para aceleração de startups de impacto, negócios sociais e comunitários. Graduada em Relações Internacionais pela e Mestre em Sociologia Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Estudou desenvolvimento sustentável na Universidade de Leiden e global climate change na University of Exeter. É também uma Jovem Liderança pelo Clima (YCL), com experiência em projetos de desenvolvimento sustentável, inovação socioambiental e segurança energética. Já atuou como consultora e mentora em programas como AGIR, Acelera, Desafio Conexsus e Startup-RS.

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